Impetus Sistemas
•19 Nov 2025
Fatos não são boatos #2 - As vacinas de RNA causam efeitos adversos graves?
Á medida que a guerra de narrativas sobre as vacinas, e, em especial as vacinas contra a Covid-19 avançam, fica cada vez mais difícil discernir fatos de boatos. Trago aqui nessa segunda postagem da série, a discussão sobre os alertas de efeitos adversos das vacinas de RNA contra a Covid-19, que são na verdade muito raros (1 a 5/100.000).Tenho seguido o blog do TrialSiteNews que tem um sistema de escores de ensaios clínicos bem interessante (https://www.trialsitenews.com/). Novamente, nunca deve haver uma única fonte de informação, mas é um bom ponto de partida.
________________________________________________________________________________
Pois bem, algumas últimas postagens recentes tentam detalhar evidências pró e contra a presença de efeitos adversos especiais (graves) após a vacinação, a saber: miocardite, pericardite, trombose do seio venoso cerebral, encefalomielite disseminada aguda e síndrome de Guillain-Barré, entre outros. Os dados de monitoramento (farmacovigilância) de Faksova K. et al. feita por um grupo de pesquisadores de 8 países diferentes, incluindo Dinamarca, Austrália, Canadá, Argentina e França (https://doi.org/10.1016/j.vaccine.2024.01.100), confirma a existência desses eventos adversos, mas confirma-os como extremamente raros. Na análise agregada dos 99 milhões de vacinados incluídos no estudo, luzes vermelhas (valor mínimo do intervalo de confiança acima de 1.5) acendem apenas para síndrome de Guillain-Barré e trombose do seio venoso com a vacina ChadOx1 e encefalomielite para a RNA 1273.
____________________________________________________________________________
A postagem mais impactante vem da Dinamarca onde ativistas (Anette Friedrichsen) se queixam da enorme dificuldade de obter tratamento para esses indivíduos, já que dentro do sistema de saúde pública dinamarquês não há critérios diagnósticos claros para esses efeitos adversos graves após vacinação. E, muitas vezes, os sintomas não são tão claros. É interessante ler a matéria que busca esclarecer (https://www.trialsitenews.com/a/its-like-hitting-a-wall-a-danish-activist-speaks-out-on-vaccine-injury-silence-1fd55190) por que um sistema tão bem montado falha com esses pacientes: uma lição importante para gestores de saúde. Uma pimentinha adicional nessa discussão vem, de novo, da Dinamarca, onde Ritzau e colaboradores concluíram, após 4 anos de um estudo patrocinado por dinheiro dos contribuintes, que custou milhares de coroas dinamarquesas, que os sintomas relatados (geralmente leves) se devem, em parte, a efeito “nocebo”, ou seja, os eventos adversos seriam causados por efeito psicológico levando a sintomas reais (https://www.trialsitenews.com/a/worry-over-covid-19-vaccines-denmarks-nocebo-study-sparks-backlashand-rightly-so-88e96da6). Imaginem só a confusão que deu!
__________________________________________________________________________
Neste assunto vale ainda ler as matérias sobre a contaminação da vacina de RNA da Pfizer com DNA residual que supostamente seriam as causas do aumento de casos de câncer e outros efeitos adversos graves. A postagem no Global Vaccine Data Network (Plasmid-gate: Debunking the DNA contamination claims in mRNA vaccines) e o blog - VAERS and plasmid DNA “contamination” of COVID-19 vaccines: The nonsense continues (https://www.respectfulinsolence.com/) são emblemáticos. Finalmente, o artigo de Igyártó & Qin (doi: 10.3389/fimmu.2024.1336906) elabora sobre mecanismos inflamatórios relacionados ao uso das nanopartículas na formulação das vacinas de RNA que poderiam explicar esses efeitos adversos, mas não traz dados concretos. Consultei vários artigos adicionais que não foram capazes de jogar uma luz no assunto pois relatam apenas efeitos adversos leves e transitórios. Por fim, as empresas e as agências regulatórias (OMS e FDA, por exemplo) reforçam que testes de segurança são executados com toda a qualidade e seriedade que o assunto exige, mas na bula da Pfizer, por exemplo, aparecem como raros e graves apenas a pericardite, a miocardite e a paralisia facial aguda.
_______________________________________________________________________________
É importante lembrar que há um problema de causalidade inerente ao fato dos efeitos adversos graves serem raros, necessitando de evidências fortes para comprovar a relação com o ato de vacinação. Por fim, um ponto de atenção: a desconfiança do público perante a ausência de reconhecimento de um grupo específico de pessoas doentes, mesmo que pequeno, é ampliado enormemente nas redes sociais e contamina todo o sistema, pondo em xeque inclusive as novas vacinas que estão sendo desenvolvidas. E, a epidemiologia não deixa dúvidas como a vacinação da população é fortemente benéfica em relação aos riscos.
Façam suas apostas: Há ou não há efeito adversos grave causado por vacinas contra a Covid-19?
Texto elaborado por Anna Carla Goldberg, consultora em integridade científica e qualidade da pesquisa (@goldbergconsultoria)